terça-feira, 19 de abril de 2016

Fuck You Gently (With A Chainsaw) - Entrevista com Killing Chainsaw


Eu pensei em escrever uma série de coisas para introduzir a entrevista, que na minha opinião, é uma das que se tornarão mais clássicas aqui nas páginas do TBTCI, mas nem cheguei a finalizar um parágrafo sequer. O motivo, sei lá, não faço a menor ideia, talvez seja porque escrever, pra introduzir algo a respeito do Killing Chainsaw seja absolutamente desnecessário, estúpido e deveras pretensioso.

Pelo seguinte, se você viveu nos 90´s, digo se viveu de verdade, esteve presente nos inferninhos mais sujos e escuros, onde tinha de tudo, mas tudo mesmo, e principalmente, se você estava inteirado com o que estava acontecendo de realmente importante musicalmente falando, você sabe, ou deveria saber que o KC é simplesmente um patrimônio em formato musical deste país, certo? Óbvio que esta certo.

E se você por ventura não concorda comigo, vamos amanhã num boteco qualquer ali no Largo da Batata em Pinheiros, perto do Z Carniceria, tipo umas 21 daí a gente discute tomando umas, pode ser?

Porque amanhã, 20/04/2016, acontecerá algo histórico. Amanhã, o KC estará em cima dos palcos novamente, agredindo tímpanos e despejando o que foi feito de melhor em termos de barulho nesse país, claro junto com outros comparsas do crime, o Mickey Junkies e o Twinpine(s), isso em SP, porque mais duas datas acontecerão, uma no RJ e outra em BH, detalhes você pega tudo aqui https://www.facebook.com/guitardaysdoc, a página do Documentário definitivo sobre uma era quase perdida da música do país. Aplausos para Caio e Co.

Bem, pra quem não ia escrever porra nenhuma, já escrevi mais do que o suficiente, agora deixo vocês com Rodrigo Guedes em nome do Killing Chainsaw.

Preparem os tímpanos.
***** Entrevista com Killing Chainsaw *****


TBTCI: Antes de mais nada, uma honra trocar essa ideia com vocês, valeu demais!!

Q. Depois de décadas eis que o KC volta a ativa. Pra muita gente, que teve a oportunidade de acompanhar vocês na época áurea e também pra nova geração que se alimenta das lendas urbanas sobre de vocês. Qual foi a grande e principal motivação pra essa reuniao?

Antes de mais nada, obrigado a você pelo espaço, que a gente curte muito! Pra responder essa pergunta é importante primeiro dizer que o KC não teve um fim combinado. Um dia fizemos um último show e como na época a gente sabia que as coisas estavam um pouco tranquilas demais, foi tudo esfriando, até parar de vez. Nunca decidimos acabar realmente. Somos irmãos, acima de tudo. Temos respeito, admiração e acima de tudo uma amiade que dura décadas. Moravamos juntos na época do Killing e isso tornou a relação da banda muito especial. Então esse retorno é algo que conversamos há anos. Ensaiamos ele várias vezes, mas, por conta da rotina de cada um, nunca levamos adiante. Agora recebemos um convite do Caio, diretor do Guitar Days, documentário sobre a cena independente no qual a gente fez parte nos anos 90, de tocar nos shows de lançamento do filme. Dai não teve jeito, aceitamos o desafio. E acho que o momento foi certo. Estamos muito animados com os shows.


Q. Tem muita historia sobre vocês na net, mas qual é a verdade? Como o KC começou? Qual a origem do nome?

Tem? Hahaha, não sabia. Olha, o KC começou como qualquer banda. Dois amigos, vizinhos, cheios de discos bons e muito tempo sobrando começaram a tocar. Dois Rodrigos, (Guedes e Buriola). Em pouco tempo convidamos um outro cara chamado André Godoi, hoje grande diretor de filmes para publicidade, e esse foi o embrião. Isso foi em 1989, logo depois que me mudei de Brasilia para Piracicaba. Em poucos meses, Já tinhamos um baixista, Gerson e um quarto de ensaio. Foi nesse período que surgiram as primeiras músicas. Acho que ninguém sabe, mas a primeira música que fizemos já com o nome de Killing Chiansaw foi Evisceration.

Alguns meses depois estava estudando no Melo Morais, uma escola pública bem em frente a minha casa em Piracicaba e lá conheci o Gozo e foi ali que o Killing Chiansaw realmente decolou. As duas fitas cassetes (Prudence e Shoot It) foram gravadas com essa formação.

Q. Dois álbuns considerados absolutamente clássicos e essenciais pra entender os desdobramentos do que chama-se de “rock alternativo” aqui no país. Como foram as gravações dos álbuns? (o que vocês lembram é claro, hahahahahahaha)

Lembro muito bem. O primeiro disco partiu de um convite do Alex Antunes. Nós começamos um diálogo quando ele lançou através do selo Manifesto a coletânea Enquanto Isso..., um primo direto das coletâneas Não São Paulo. Na coletânea eles usaram duas músicas da nossa cassete. Lembro da reunião na casa do Alex, a gente explicando que gravamos tudo em casa, num Tascam (isso em 1989) e eles querendo saber como era aquilo. O Akira S., a Sandra das Mercenárias, edgar Scandurra e a gente, os meninos do interior. Foi a primeira experiência importante do KC.

Em pouco tempo rolou o convite para o primeiro disco. Gravamos com o RH Jackson e foi uma experiência incrível. O Jack é um dos caras mais talentosos que eu conheci e naquela época ele dominava a musica independente gravada no Brasil. Ele nos ensinou muita coisa e colaborou como músico no processo. Infelizmente quando enviamos os rolos para masterização não tivemos a oportunidade de acompanhar o processo e achataram o disco, provavelmente com medo do barulho comprometer o acetato ou algo parecido. Uma burrice muito comum naquela época. Isso foi em 1991.

O segundo disco gravamos durante a copa do mundo de 1994. Foi uma experiência oposta, completamente fria. Nós queríamos um super estúdio e conseguimos o BeBop. Mas com a grana que a gente tinha e a pouca experiência, utilizamos um técnico do estúdio que não falava nossa linguagem e a qualidade dos nossos instrumentos não cabia naquele ambiente. O Miranda estava gravando o Little Quail na sala dois, ao lado da gente e algumas vezes foi entrou para nos dar uma força, umas dicas. Acho o Slim um disco incrível, e o momento mais seguro e potente do KC, mas que sofreu com nossa ambição e pouca experiência como produtores. Nessa época a gente poderia dominar o mundo, isso eu tenho certeza.


Q. Existe um abismo de diferenças sonoras entre os dois álbuns do KC. Na opinião de vocês qual a grande diferença entre o primeiro e o Slim Fast Formula? E porque essa “mudança, mesmo havendo conexões é claro.

É preciso deixar claro que o KC não pertence a lugar algum. A gente sempre ouviu muita coisa o tempo todo, ao mesmo tempo. Nossa geração tinha essa possibilidade. Beastie Boys, Jesus and Mary Chain, AC/DC, Joy Division, Public Enemy, Slayer, House of Love, Pixies, Pixies, Pixies, Pixies... Então era imporvável que nossa música fosse estática. Ela foi mudando sozinha, sem pensar. Por exemplo, as músicas entre o primeiro e o segundo disco nunca foram lançadas, estão guardadas, elas são incríveis porque fazem parte dessa transição e tiram um pouco da sensação de ruptura. Pensamos em gravar elas ainda. Acho que essa era uma grande qualidade do Killing Chainsaw que eu sempre tentei preservar nos meus projetos futuros.

Q. Reza a lenda que o KC era a banda mais perigosa e caótica em cima dos palcos nos 90´s. Contem pra nós como eram os shows naquela época.
KC: A gente desde cedo decidiu morar juntos com um único propósito: Ter um quarto de ensaio e passar a maior parte do tempo possível dentro dele. Ensaiar, ter as músicas perfeitamente tocadas era uma coisa que a gente levava muito a sério. EntÃo no palco sobrava espaço para diversão, improviso e muita potencia. Assistir o KC, acredito eu, era uma experiência única. Desde o primeiro show, no Retro em SP ainda 1989 quando eu tocava numa guitarra Jeniffer e no fim da última música arrebeitei todas as cordas com a mão, até o último show em 1997 n Blue Galeria, com o Fugazi, em Piracicaba, a energia e a vontade de fazer aquilo nunca mudaram.

Q. Existe uma grande diferença de como as bandas daquela época lidavam com a critica em relação a postura que existe hoje (claro estou generalizando, existem exceções, mas são poucas). Expliquem a postura do KC naquela época em relação a mídia.
KC: Não tinha postura. A gente tinha um canal de divulgação que era a BIZZ, que desde o início olhou pra gente e deu espaço para divulgar o trabalho. Tinha aquela coisa de banda revelação, melhores do ano, que chamava muita atençÃo. Mas nada se compara a quando eles divulgaram nosso endereço para pedir as fitas cassetes lá no início e choveu cartas do Brasil inteiro com envelopes com dinheiro para pagar as fitas. Cara, aquilo mostrava pra gente que a revista, mais do que um espaço para se conhecer, era um puta canal de comunicação entre moleques que a gente nem sabia que existia, querendo a mesma coisa, naquele momento. Isso numa época pré internet era assustador. Paralelo a isso tinham os zines, as pequenas publicações e os primeiros espaços em grandes jornais dedicados a musica independente. O Alexandre Matias, por exemplo, foi um pioneiro em ocupar com qualidade parte desses espeços, ainda em Campinas. Saimos em várias capas de Ilustrada e Estadão, mas sempre como algo caricato, grunge, do momento. Pouca gente nos grandes veículos sabia explicar aquilo que estava acontecendo.

Dai tem a crítica e a crítica é a crítica. Ela faz o papel dela, alimenta sonhos, desperta curiosidade ou deixa você puto da cara. Hahha. Ela faz parte dessa mitologia que existe sobre você consumir o que é bom e o que não é e a crítica sempre me ajudou a descobrir coisas incríveis, mesmo quando nÃo concordava com o que estava sendo dito. Ainda hoje sou um curioso e leio críticas de discos e filmes diariamente.

Q. Qual o “hino” do KC – Fuck You Gently (with a chainsaw)? Evisceration? Lollypop?
KC: Você me diz! hahahaha
TBTCI: (TODAS as TRÊS)


Q. O que vocês ouvem atualmente? O que recomendam de novo?
KC: Cara, sou a mesma metralhadora de sempre. Essa resposta pode virar um livro! Eu curto muita coisa nova, mas a maior parte do tempo ouvimos nossos ídolos. OS bons discos só melhoram com o passar dos anos. Por isso sempre voltamos pra eles.

Q A fatídica pergunta que adoro fazer, quais os discos da vida de cada um de vocês? (uns cinco)
KC: Eita...

Surfer Rosa / Isn’t Anything / Sister / Darklands / Closer / Revolver

Blood On The Tracks / In the Airplane Over the Sea / Everybody Knows This Is Knowhere

Q. Sobre o doc. Guitar Days e os shows (SP/BH/RJ) como rolou todo o flerte com o Caio e o desenrolar dos shows?
KC: Ele convidou, nós topamos. Foi rápido. O Caio se dedicou muito para montar esse retrato. Ele é um batalhador. Estou muito curioso para assistir o resultado final. Depois disso, temos o Bananada 14 de maio.

Q. Quais os planos futuros do KC?
KC: Ainda sem planos concretos, mas estamos conversando muito sobre isso. O que a gente entende é que não pode ser um retorno, mas uma continuaçÃo. Não vamos ficar por ai tocando músicas da decada de 90 apenas se for para seguir em frente. Temos muito gás para fazer o melhor do KC ainda.

Q. Considerações finais (hahhahahhaha não podia faltar)
KC: Se essa for a última oportunidade de assistir o KC, eu não perderia! Hahahah

Novamente obrigado Renato.
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Valeu KILLING CHAINSAW!!!

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